Inteligência artificial na saúde: o que separa o palco do serviço

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ANÁLISE · WEB SUMMIT 2026

Por Paulo Nunes de Abreu, Diretor do Fórum Hospital do Futuro

Se há uma certeza sobre o Web Summit deste ano é que a inteligência artificial vai dominar os palcos. Modelos cada vez mais capazes, agentes que executam tarefas de forma autónoma, promessas de produtividade em todos os setores. A saúde aparecerá muitas vezes como exemplo — e quase sempre como o exemplo mais promissor.

Convém, por isso, lembrar o que torna a saúde diferente. Um erro de recomendação numa plataforma de comércio eletrónico custa uma venda. Um erro num apoio à decisão clínica pode custar uma vida. A saúde trabalha com risco elevado, com regulação exigente — de dispositivos médicos, de proteção de dados e, agora, do Regulamento Europeu da Inteligência Artificial — e com responsabilidade profissional que não se delega numa máquina.

Primeiro os dados, depois a IA

A experiência acumulada nos hospitais, em Portugal e lá fora, aponta numa direção clara: a maioria dos projetos de inteligência artificial em saúde não falha no algoritmo. Falha antes. Falha na qualidade dos dados, na falta de interoperabilidade entre sistemas, na ausência de governação sobre quem pode usar que dados e para quê, e em processos clínicos que não foram redesenhados para incorporar a nova ferramenta.

É por isso que defendemos, no ecossistema em que o Fórum Hospital do Futuro se insere, um princípio simples: primeiro os dados, depois a IA. Um hospital que não sabe a qualidade dos seus próprios registos não está preparado para confiar num modelo treinado sobre eles.

O Espaço Europeu de Dados de Saúde, cujo regulamento entrou em vigor em 2025 e será aplicado de forma faseada, vai tornar esta questão inevitável. Mudará a forma como os cidadãos acedem aos seus dados e como esses dados podem ser reutilizados para investigação, inovação e definição de políticas. Os hospitais que começarem agora a organizar a sua casa estarão em vantagem.

Cinco perguntas para separar substância de espetáculo

Para quem vai ouvir apresentações sobre IA aplicada à saúde, sugerimos cinco perguntas:

  • Com que dados foi o modelo treinado? São representativos da população que o hospital serve?
  • Foi validado fora do contexto onde nasceu? Um bom desempenho num hospital não garante o mesmo noutro.
  • Onde entra no fluxo de trabalho? Quem o usa, em que momento, e o que deixa de fazer por causa dele?
  • Quem responde quando falha? O enquadramento de responsabilidade está definido ou fica implícito?
  • Como é monitorizado depois de implementado? Os modelos degradam-se com o tempo; é preciso saber quem vigia.

Agentes de IA e a carga administrativa

O tema que provavelmente mais se ouvirá este ano é o dos agentes de IA — sistemas que não se limitam a responder, mas que executam sequências de tarefas. Na saúde, a aplicação mais imediata e menos arriscada está longe do diagnóstico: está na carga administrativa que consome uma parte significativa do tempo de médicos, enfermeiros e técnicos. Registos, codificação, marcações, relatórios, gestão de altas.

Aqui o potencial é real. Mas a mesma lógica aplica-se: sem integração nos sistemas existentes e sem regras claras de supervisão humana, o agente mais sofisticado acrescenta trabalho em vez de o retirar.

O valor está na implementação

O Web Summit mostra-nos o que a tecnologia já consegue fazer. O que não pode mostrar, num palco, é o trabalho paciente de a pôr a funcionar dentro de um serviço hospitalar, com pessoas reais, sob pressão real. É esse trabalho que o Fórum Hospital do Futuro quer acompanhar — e é sobre ele que continuaremos a escrever depois de as luzes do Parque das Nações se apagarem.

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