STARTUPS · WEB SUMMIT 2026
Por Paulo Nunes de Abreu, Diretor do Fórum Hospital do Futuro
Todos os anos, os pavilhões do Web Summit enchem-se de startups de saúde. Plataformas de monitorização, ferramentas de triagem, soluções de bem-estar, aplicações de apoio à decisão. Muitas são genuinamente inovadoras. Poucas chegarão, em escala, a um hospital do Serviço Nacional de Saúde.
Não é por falta de qualidade. É porque entre o pitch e a compra pública existe um fosso que raramente se discute nos palcos — e que penaliza tanto as empresas como os hospitais que precisam delas.
Porque é que tão poucas atravessam
A contratação pública tem o seu próprio tempo. Uma startup financiada para dezoito meses dificilmente sobrevive a um ciclo de decisão, cabimentação e procedimento que pode demorar mais do que isso.
A evidência não viaja sozinha. Resultados obtidos noutro país, noutro sistema de saúde, com outra organização de cuidados, não convencem automaticamente um diretor clínico português — e fazem bem em não convencer.
Falta um modelo de financiamento. Mesmo quando a solução funciona, muitas vezes não há uma rubrica orçamental onde caiba nem um mecanismo de financiamento que a sustente para além do piloto.
O piloto eterno. É uma das doenças crónicas da inovação em saúde: projetos-piloto que correm bem, que todos elogiam, e que nunca passam à fase seguinte porque ninguém definiu, à partida, o que significaria o sucesso e quem pagaria a escala.
A dependência de um campeão. Muitas experiências assentam no entusiasmo de um único profissional. Quando essa pessoa muda de funções, o projeto morre com a sua saída.
O que os hospitais podem fazer
O primeiro passo é inverter a lógica: definir os problemas antes de procurar soluções. Um hospital que sabe dizer com clareza onde estão os seus estrangulamentos — e com que indicadores os mede — está em muito melhor posição para avaliar o que vê numa feira.
O segundo é usar os instrumentos que já existem. O Código dos Contratos Públicos prevê mecanismos pensados para a inovação, como a parceria para a inovação e as consultas preliminares ao mercado, que continuam pouco utilizados na saúde.
O terceiro é desenhar pilotos com saída: critérios de sucesso definidos à partida, métricas acordadas, e uma decisão prevista sobre o que acontece no fim.
O que as startups devem levar para a conversa
Às empresas que vão estar em Lisboa, deixamos uma sugestão: preparem-se menos para o investidor e mais para o diretor de serviço. Falem de custo total, e não apenas de preço. Expliquem como a solução se integra nos sistemas que o hospital já tem. Mostrem que entendem a responsabilidade clínica e a proteção de dados. E tragam métricas que façam sentido para quem gere, não apenas para quem investe.
Um espaço para a ponte
O fosso entre inovação e sistema de saúde não se resolve com mais eventos nem com mais startups. Resolve-se com conversas mais honestas entre quem cria e quem decide. É esse o papel que o Fórum Hospital do Futuro quer continuar a desempenhar: dar voz aos profissionais que estão no terreno e ajudar a transformar o entusiasmo do Web Summit em decisões que melhorem os cuidados.


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