Portugal tem uma oportunidade rara: tornar-se um país que cura

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Entre a recentralização do SNS, os sistemas locais de saúde e a emergência de novos territórios de bem-estar, talvez esteja a nascer em Portugal uma nova visão para a saúde, a longevidade e a qualidade de vida.

Desde a aprovação da nova Lei de Bases da Saúde, em 2019, Portugal iniciou um importante processo de transformação conceptual do seu sistema de saúde. A saúde deixou de ser entendida apenas como resposta à doença para passar a ser enquadrada como um direito profundamente ligado às condições sociais, económicas, ambientais e territoriais da vida das pessoas. Essa mudança de paradigma ganhou ainda maior relevância após a pandemia de COVID-19, que expôs fragilidades estruturais, desigualdades territoriais e a necessidade de respostas mais próximas às comunidades.

Foi neste contexto que surgiram novas reformas organizacionais do SNS, incluindo a criação da Direção Executiva do SNS e a extinção das Administrações Regionais de Saúde. A intenção era clara: reforçar a coordenação, a eficiência e a capacidade de execução. Contudo, permanece uma questão essencial que merece uma profunda reflexão estratégica.

Num momento em que os desafios da saúde exigem cada vez maior adaptação regional, proximidade e integração territorial, terá Portugal caminhado para uma excessiva recentralização do sistema?

A experiência da pandemia demonstrou a importância crítica das respostas locais, da articulação com os municípios, da proximidade às populações e da capacidade de adaptação rápida às especificidades de cada território. Mostrou também que os grandes desafios contemporâneos — envelhecimento, doenças crónicas, saúde mental, isolamento social, pressão sazonal, desigualdades no acesso — não podem ser resolvidos apenas nas paredes dos hospitais ou por meio de estruturas exclusivamente centralizadas.

Talvez por isso seja legítimo perguntar se a extinção das ARS não poderia ter sido aproveitada para um salto mais ambicioso: integrar progressivamente a saúde nas dinâmicas de desenvolvimento regional e territorial, articulando-a com as CCDR, os municípios, as universidades, as comunidades e os restantes actores locais.

A saúde já não pode ser pensada como uma política sectorial isolada. Hoje, cuidar implica articular habitação, mobilidade, ambiente, envelhecimento activo, coesão social, literacia, bem-estar organizacional e qualidade de vida. Implica construir sistemas locais de saúde verdadeiramente integrados, capazes de responder às necessidades concretas das pessoas e dos territórios.

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É precisamente neste ponto que o debate sobre os Sistemas Locais de Saúde ganha centralidade. Mais do que uma reforma administrativa, estamos perante uma mudança de visão: passar de um SNS predominantemente reactivo e hospitalocêntrico para um sistema mais preventivo, colaborativo, territorial e centrado na vida real das comunidades.

A recente nomeação de Adalberto Campos Fernandes para coordenar um novo Pacto Estratégico para a Saúde pode representar uma oportunidade importante para relançar este debate em um plano mais profundo e estruturante. Não apenas sobre gestão ou financiamento, mas sobre o modelo de país e de sociedade que queremos construir através da saúde.

Porque talvez o verdadeiro desafio não seja apenas garantir a sustentabilidade financeira do SNS, mas também criar um novo pacto de confiança, proximidade e responsabilidade partilhada entre Estado, profissionais, autarquias, comunidades e cidadãos.

E é aqui que o Algarve pode assumir um papel pioneiro.

O Algarve reúne características únicas no contexto nacional e europeu: forte capacidade de atracção internacional, qualidade ambiental, clima, diversidade cultural, envelhecimento activo, mobilidade global, pressão sazonal sobre os serviços e uma economia fortemente ancorada no turismo — um dos principais motores económicos do país.

Mas talvez esteja precisamente aí a sua maior oportunidade estratégica.

Num mundo cada vez mais marcado pelo envelhecimento, pela procura de qualidade de vida e pela necessidade de sistemas de saúde mais humanos e sustentáveis, o Algarve pode deixar de ser visto apenas como um destino turístico e afirmar-se como um verdadeiro laboratório europeu de inovação em saúde, bem-estar e longevidade.

O conceito do Lagos WellTech Summit e do Algarve WellTech Innovation Valley nasce dessa visão: aproximar saúde, território, inovação, ciência, bem-estar e desenvolvimento regional numa lógica integrada, colaborativa e orientada para um impacto real nas comunidades.

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Mais do que organizar as nossas cimeiras anuais, trata-se de construir uma nova narrativa territorial para Portugal — uma narrativa em que a saúde, a qualidade de vida e a capacidade de cuidar passam a ser activos estratégicos do país.

Talvez esteja aqui uma das grandes oportunidades nacionais das próximas décadas: transformar Portugal numa referência internacional não apenas pela sua hospitalidade, mas também pela sua capacidade de gerar bem-estar, longevidade, prevenção, integração de cuidados e qualidade de vida.

Portugal tem uma oportunidade rara: tornar-se um país que cura.


P.S. A propósito deste debate, chamou-me a atenção uma recente afirmação de Virgílio Bento, CEO da Sword Health, ao sugerir que seria possível resolver “50% dos problemas do SNS com tecnologia” em dois ou três anos.

Independentemente do mérito e do enorme valor da inovação tecnológica portuguesa — que importa reconhecer e estimular — talvez esta afirmação ajude também a abrir uma reflexão mais profunda sobre os limites do chamado “solutionism” tecnológico aplicado à saúde.

Os sistemas de saúde não são apenas plataformas operacionais. São sistemas humanos, sociais, organizacionais e territoriais de enorme complexidade, em que a confiança, a cultura, a governação, a proximidade, a colaboração e a qualidade das relações continuam a ser tão importantes quanto os algoritmos, os dados ou a inteligência artificial.

E, mesmo admitindo, por hipótese, que a tecnologia possa ajudar a resolver “50% dos problemas”, talvez a questão mais importante seja outra: o que faremos com os restantes 50%?

Porque dificilmente haverá tecnologia capaz de substituir a escuta, a liderança, o sentido de comunidade, a coesão territorial ou a capacidade humana de cuidar.

Talvez o verdadeiro futuro da saúde esteja precisamente na capacidade de integrar inovação tecnológica à inteligência organizacional, à visão territorial e à humanidade.