Abril chegou. E talvez este seja o momento certo para dizer, com clareza, aquilo que muitos já intuíram: a Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa periférica na saúde. Passou a ser uma questão central de soberania, qualidade, sustentabilidade e visão estratégica para Portugal.
A minha recente participação no Fórum TSDT reforçou essa convicção. O que ali se tornou evidente é simples: a IA já não pertence apenas ao universo dos tecnólogos, das start-ups ou dos departamentos de inovação. Ela entrou no coração do sistema de saúde. Está a tocar na prática clínica, na organização do trabalho, na gestão dos fluxos, na integração dos dados, na prevenção, na decisão e, inevitavelmente, na forma como imaginamos o futuro do SNS.
Mas convém dizer isso sem ingenuidade: a IA, por si só, não salva nenhum sistema.
A IA pode ajudar a reduzir a carga administrativa, apoiar a decisão clínica, melhorar a prevenção, reforçar a coordenação e libertar tempo humano para aquilo que verdadeiramente importa. Mas também pode ampliar enviesamentos, criar novas opacidades, fragmentar responsabilidades e introduzir uma perigosa ilusão de neutralidade tecnológica. O ponto não está na tecnologia em si. Está na forma como a desenhamos, a governamos, a implementamos e a escrutinamos.
É por isso que a conversa séria sobre IA em saúde tem de começar antes do algoritmo.
Tem de começar pela qualidade dos dados.
Na segurança e na interoperabilidade.
Na ética e na literacia.
Na governação e supervisão humana.
E numa pergunta essencial: esta tecnologia está realmente ao serviço das pessoas, dos profissionais e da qualidade dos cuidados?
Foi precisamente isso que procurei sublinhar no Fórum TSDT. A IA só será transformadora se for confiável. Só será legítima se for compreensível. Só será útil se for integrada no terreno real dos cuidados. E só será sustentável se reforçar o papel dos profissionais, em vez de os empurrar para uma nova camada de dependência tecnológica sem voz nem critério.
Em saúde, a IA não pode ser tratada como mais uma moda. Tem de ser tratada como infraestrutura estratégica.
Portugal tem aqui uma oportunidade rara. Não apenas para adotar tecnologia, mas também para fazê-lo com inteligência coletiva. Não apenas para importar soluções, mas também para valorizar o que já está a ser criado, testado e implementado no país. Não apenas para falar de inovação, mas também para lhe dar visibilidade, critérios e direção.
E é aqui que os Health AI Innovation Awards Portugal assumem uma importância muito maior do que a de uma simples iniciativa de reconhecimento.
Os HAIA são, na verdade, um instrumento de organização nacional da inteligência dispersa.
A sua metodologia assenta num Scorecard Nacional de Boas Práticas, orientado para avaliar a implementação prática da IA em saúde com rigor, equidade e consistência. As candidaturas estão abertas a projetos desenvolvidos em Portugal ou implementados no SNS até 30 de abril de 2026. Todas as equipas recebem o seu scorecard, e as distinções não assentam na lógica simplista de “um vencedor único”, mas em níveis de maturidade e impacto, incluindo Excelência em IA aplicada à Saúde, Boas Práticas de Implementação de IA e Contributo Relevante para o SNS. A cerimónia está marcada para 16 de junho de 2026, seguindo-se um relatório nacional com scorecards agregados, boas práticas e recomendações para o SNS.
Isto é profundamente estratégico.
Porque um país que quer ser resiliente em IA em saúde precisa de mais do que talento isolado. Precisa de capacidade de agregação. Precisa de tornar visível o que está a ser feito. Precisa reconhecer o impacto real, e não apenas o brilho mediático. Precisa de criar referências partilháveis, de aprendizagem cruzada e de confiança coletiva.
Em Portugal, existe hoje um trabalho muito relevante a decorrer em hospitais, ULS, universidades, empresas, laboratórios, plataformas digitais, equipas clínicas e redes colaborativas. O problema é que demasiado desse trabalho continua disperso, invisível ou sub-reconhecido. Sem um grande agregador nacional, continuaremos a ter bons exemplos, mas sem massa crítica visível. Continuaremos a inovar sem uma narrativa comum. Continuaremos a ter capacidade sem ecossistema.
Os HAIA podem ajudar a mudar isso. E essa mudança importa não apenas para premiar, mas também para mapear o país que está a emergir.
Num momento em que Portugal procura reforçar a sustentabilidade do SNS, alinhar melhor as políticas nacionais com as competências locais e fortalecer a integração em torno das ULS, a IA não pode ficar à margem da estratégia. O IV Plenário do Think Tank SNS de Contas Certas foi concebido precisamente para produzir recomendações e soluções práticas sobre coordenação intergovernamental, descentralização, adaptação às necessidades locais e inovação em governança, com as ULS vistas como espinha dorsal do SNS e com foco em maior eficiência, equidade e sustentabilidade. A apresentação pública do evento reforça essa mesma visão: sistemas locais de saúde mais integrados, maior articulação entre os níveis de governação e a formulação de planos concretos de seguimento após abril.
Seria, por isso, um erro estratégico pensar o futuro do SNS sem colocar a IA no centro da reflexão sobre sustentabilidade, proximidade, eficiência e capacidade de resposta.
Mas, mais uma vez, não é qualquer IA. Precisamos de uma IA com propósito público.
Uma IA clinicamente relevante.
Uma IA interoperável e eticamente governada.
Uma IA que ajude Portugal a ser mais forte, não mais dependente.
Uma IA que reforce o SNS, valorize os profissionais e dê mais inteligência ao sistema.
Isso está ao nosso alcance.
Temos profissionais de excelência. Temos equipas técnicas competentes. Temos clínicos atentos. Temos TSDT, engenheiros, gestores, investigadores e um ecossistema empreendedor capazes de desenvolver soluções sérias. O que falta, muitas vezes, é articulação nacional, visibilidade estruturada e reconhecimento com critérios.
É precisamente isso que os Health AI Innovation Awards Portugal podem oferecer neste momento.
Por isso, o apelo é simples: se está envolvido num projeto de IA em saúde em Portugal, não o deixe invisível. Não o deixe fechado no seu silo. Não o deixe perder a oportunidade de contribuir para uma narrativa nacional mais forte.
Submeta-o. Dê-lhe palco. Ajude a construir o grande agregador nacional da IA em saúde.
Portugal pode afirmar-se nesta área.
Portugal pode ser mais resiliente.
Portugal pode ser mais inteligente.
Portugal pode ser mais ambicioso.
Mas, para isso, precisamos mostrar, conectar, reconhecer e elevar o que já existe.
Abril é o momento certo para começar a fazê-lo com mais coragem.
Call to action
As candidaturas aos Health AI Innovation Awards Portugal estão abertas até 30 de abril de 2026. Este pode ser o passo certo para dar visibilidade ao trabalho disperso que está a transformar a saúde em Portugal — e para o integrar num movimento nacional mais forte, mais maduro e mais estratégico.
Candidaturas e mais informações: https://www.health-ai-innovation-awards.pt/

