O futuro da saúde em Portugal não pode continuar a ser pensado apenas a partir da doença, do hospital, da consulta, da urgência ou do episódio assistencial. Tem de ser pensado a partir da vida das pessoas, dos territórios onde vivem, dos seus percursos, vulnerabilidades, redes, hábitos, contextos sociais, ambientais, culturais e económicos.
Estamos a terminar a semana do Dia de Portugal. Um momento simbólico para olhar para o país que somos, mas também para o país que podemos vir a ser.
E talvez não exista hoje pergunta mais urgente do que esta:
Que futuro queremos para a saúde em Portugal?
A pergunta surge num momento particularmente significativo. A Organização Mundial da Saúde publicou recentemente o primeiro retrato da preparação da Europa para a utilização da Inteligência Artificial na saúde. Portugal prepara-se para reconhecer os primeiros projetos distinguidos nos Health AI Innovation Awards. O Conselho Nacional de Saúde promove um processo nacional de escuta e de construção de consenso. E o SNS enfrenta uma das maiores pressões de sustentabilidade da sua história.
Neste cruzamento entre saúde, tecnologia, participação e território, é legítimo perguntar:
Poderá a Inteligência Artificial ajudar a salvar o SNS?
A resposta é sim, mas nunca como uma panaceia para todos os problemas.
A IA não é uma solução mágica. Não substitui profissionais, não corrige problemas de organização e, por si só, não resolve dificuldades de financiamento, de acesso, de interoperabilidade, de confiança ou de governação.
Mas poderá ser uma das grandes oportunidades para aumentar a capacidade do SNS sem, na mesma proporção, aumentar os recursos disponíveis.
O SNS foi concebido para um mundo com menor esperança de vida, menos doenças crónicas, menor pressão sobre os cuidados continuados e menor complexidade tecnológica. Hoje enfrenta simultaneamente o envelhecimento da população, a multimorbilidade, a escassez de profissionais, as dificuldades de acesso, as restrições financeiras e a procura crescente.
O problema não é apenas a falta de recursos. É também a dificuldade em utilizar melhor os recursos existentes.
Sustentabilidade não é apenas gastar menos
A sustentabilidade do SNS não pode ser reduzida à contenção financeira.
Tem de significar cuidar melhor, prevenir mais cedo, reduzir desperdício, integrar cuidados, apoiar profissionais, utilizar dados com inteligência e criar organizações capazes de aprender com a própria prática.
A sustentabilidade é financeira, mas é também social, profissional, ambiental, digital, territorial e institucional.
Esta reflexão não pode, contudo, limitar-se ao SNS considerado isoladamente. O SNS é o pilar estruturante e a principal garantia de universalidade do sistema de saúde português, mas esse sistema integra também prestadores privados, instituições sociais e solidárias, farmácias, cuidados continuados, autarquias e diferentes formas de parceria entre entidades públicas e privadas. O desafio não é substituir o SNS, mas enquadrar estes recursos numa estratégia transparente de complementaridade, orientada pelo interesse público, pela qualidade dos cuidados e pelas necessidades das pessoas.
O relatório da OMS mostra que a Europa está a entrar numa nova fase. Já não se trata apenas de experimentar algoritmos. Trata-se de preparar os sistemas de saúde para implementar a IA com segurança, confiança e impacto.
A tecnologia pode apoiar o diagnóstico, a decisão clínica, o envolvimento dos doentes, a gestão operacional e a análise de dados. Mas o verdadeiro desafio não está apenas nos algoritmos.
Está na qualidade dos dados, na governação, na ética, na preparação dos profissionais, na confiança dos cidadãos e na integração da tecnologia nos processos reais de prestação de cuidados.
Não existe boa Inteligência Artificial sem dados de saúde de qualidade, representativos, interoperáveis e utilizados com confiança.
Esta também é uma das lições dos Health AI Innovation Awards Portugal. Os projetos avaliados mostram que há talento, capacidade científica, espírito empreendedor e inovação relevantes no país.
A maturidade de uma solução de IA não depende apenas da sofisticação do algoritmo. Depende da interoperabilidade, da integração nos fluxos clínicos, da validação em contexto real, da aceitação pelos profissionais, da transparência e da capacidade de escalabilidade.
De ilhas de excelência à capacidade sistémica
Portugal continua a ser classificado como um país moderadamente inovador. Mas essa classificação não deve limitar a nossa ambição.
O país já produz inovação de fronteira. A Sword Health mostrou que uma empresa nascida no ecossistema português pode tornar-se uma referência global em reabilitação digital e Inteligência Artificial. A TEKEVER demonstrou que Portugal pode competir em áreas tecnológicas altamente exigentes. Existem igualmente sinais de excelência na farmacêutica avançada, na cibersegurança, na fotónica, no espaço e noutras áreas de deep tech.
A questão já não é saber se Portugal consegue inovar.
A questão é saber se consegue transformar inovação excecional em capacidade sistémica.
Também não faltam instrumentos regulatórios. Portugal dispõe de Zonas Livres Tecnológicas, que permitem testar soluções inovadoras em ambientes reais ou próximos da realidade, sob acompanhamento das entidades competentes.
Temos talento, empresas, universidades, centros de investigação, capacidade clínica e instrumentos regulatórios.
O que nos falta?
Falta transformar exceções em sistema.
Falta passar de pilotos promissores a uma implementação sustentada.
Falta criar corredores de inovação responsáveis entre reguladores, o SNS, a academia, empresas, municípios, profissionais e cidadãos.
E falta uma metodologia participativa que permita à transformação emergir dos territórios, sem perder uma direção nacional clara.
Estratégia nacional, aprendizagem territorial
Henry Mintzberg recordou-nos que a estratégia não nasce apenas de planos definidos de cima para baixo. A estratégia real também emerge da prática, da aprendizagem no terreno e da capacidade das organizações de reconhecer padrões de valor.
Esta ideia aplica-se diretamente ao SNS.
A saúde em Portugal não será transformada apenas por uma estratégia desenhada do topo para baixo, por melhor que seja. Mas também não será transformada por iniciativas locais isoladas, por melhores que sejam.
Precisamos de combinar uma direção nacional clara com aprendizagem emergente a partir dos territórios, dos profissionais, dos utentes e das instituições locais.
É por isso que deve ser profundamente valorizado o esforço que o Conselho Nacional de Saúde está a promover, no quadro institucional do Ministério da Saúde e do XXV Governo Constitucional, através da consulta pública e do ciclo de conferências-debate sobre os Caminhos de Consenso e Compromisso para a Saúde em Portugal.
Num tempo em que a reforma da saúde é frequentemente reduzida às urgências, às listas de espera, ao financiamento ou à reorganização administrativa, este processo abre espaço à escuta, à participação e à construção de compromisso no país real.
Tive oportunidade de participar na primeira reunião, em Faro, apresentando um contributo centrado na saúde territorial, nos sistemas locais de saúde e na criação de saúde no Algarve.
A recomendação principal foi simples:
Os territórios não são apenas lugares onde se prestam cuidados. São sistemas vivos capazes de produzir saúde.
Os territórios também criam saúde
O futuro da saúde não pode continuar a ser pensado apenas a partir da doença, do hospital, da consulta ou da urgência. Tem de partir da vida das pessoas, dos lugares onde vivem, das suas redes, hábitos, vulnerabilidades e dos contextos sociais, ambientais, culturais e económicos.
A saúde nasce nos hospitais e centros de saúde, mas também nos bairros, escolas, farmácias, clubes, associações, IPSS, centros culturais, espaços verdes, programas de atividade física, autarquias e redes de vizinhança.
O futuro do SNS dependerá da sua capacidade de criar territórios que ajudem as pessoas a manter-se saudáveis, autónomas e ligadas às suas comunidades por mais tempo.
Isto implica prevenir mais cedo, recuperar a autonomia, reduzir vulnerabilidades, diminuir a procura hospitalar evitável e reconhecer os ativos comunitários que já produzem saúde, embora muitas vezes não sejam medidos nem integrados.
No Algarve, esta visão é particularmente relevante. A região combina envelhecimento, sazonalidade, mobilidade, pressão assistencial e assimetrias territoriais. Ao mesmo tempo, dispõe de uma ULS regional, de uma universidade, de municípios ativos, de CCDR, de AMAL e de redes comunitárias.
Tem, por isso, condições para funcionar como um laboratório vivo de saúde territorial.
Foi esta a ponte proposta entre o debate nacional do Conselho Nacional de Saúde e o trabalho desenvolvido no Lagos WellTech Summit: testar, no Algarve, um modelo em que a saúde territorial deixe de ser apenas uma ideia inspiradora e passe a ser uma prática organizada.
Um modelo capaz de integrar dados assistenciais, sociais, demográficos, ambientais e comunitários.
Um modelo que permita compreender onde surgem urgências evitáveis, reinternamentos, quedas, fragilidade, isolamento, doença crónica descompensada e perda de autonomia.
Em suma, um modelo capaz de reconhecer os contribuidores líquidos para a saúde: municípios, associações, escolas, clubes, farmácias, empresas municipais e instituições sociais que geram ganhos reais de saúde, embora estejam fora do orçamento tradicional do setor.
Passar desta visão à prática exige propostas concretas: planeamento conjunto da capacidade pública, privada e social em cada território; contratualização transparente, baseada na qualidade e nos resultados; interoperabilidade entre sistemas de informação; reforço dos cuidados de saúde primários e da integração com os cuidados sociais; avaliação dos ganhos de saúde produzidos pelas organizações comunitárias; e criação de mecanismos locais de governação que envolvam profissionais, municípios, instituições, cidadãos e doentes. As parcerias devem deixar de ser respostas ocasionais a situações de crise e passar a integrar uma arquitetura coerente do sistema de saúde.
A participação não pode ser apenas uma consulta. Tem de ser um método para descobrir prioridades, identificar bloqueios, reconhecer experiências que funcionam, conectar inovação dispersa e construir confiança entre diferentes atores.
A transformação da saúde portuguesa não acontecerá apenas de cima para baixo. Mas também não acontecerá se cada território inovar sozinho, sem ligação, avaliação ou capacidade de escala.
Portugal pode deixar de ser apenas um país moderadamente inovador se conseguir transformar talento, tecnologia, regulação, participação e território numa capacidade coletiva de criação de saúde.
O SNS tem futuro. Mas esse futuro não estará apenas em criar mais respostas à doença. Estará em construir melhores condições para que as pessoas permaneçam saudáveis, autónomas e ligadas às suas comunidades, sem sequer precisarem de ir ao hospital.
Talvez a Inteligência Artificial possa ajudar-nos a encontrar o Santo Graal.
Mas o verdadeiro Santo Graal não será a tecnologia.
Será um sistema de saúde, com o SNS como pilar, capaz de aprender continuamente com os seus dados, profissionais, cidadãos e territórios, num contexto cada vez mais europeu e transnacional.

