Inteligência Territorial em Saúde: o que falta depois das ULS?

No editorial anterior, defendi que a participação e o território podem ser o verdadeiro Santo Graal do SNS. Mas há uma pergunta seguinte, talvez ainda mais difícil: como transformar essa energia territorial em inteligência útil para decidir, prevenir e cuidar melhor?

A reorganização do Serviço Nacional de Saúde em torno das Unidades Locais de Saúde criou uma nova arquitetura institucional. A integração entre os cuidados de saúde primários, os hospitais e os cuidados continuados é uma condição necessária para uma resposta mais coordenada. Mas a arquitetura, por si só, não cria inteligência. E, sem inteligência territorial, a integração corre o risco de se limitar à gestão de recursos, agendas e fluxos assistenciais.

A responsabilidade populacional exige mais do que saber quantas consultas foram realizadas, quantas urgências foram atendidas ou quantos episódios hospitalares foram registados. Exige conhecer o território em profundidade: onde se acumulam fragilidades, onde surgem urgências evitáveis, onde se perdem anos de autonomia, onde cresce o isolamento, onde a doença crónica se descompensa, onde existem ativos comunitários ainda invisíveis para o sistema de saúde.

O território é o lugar onde a saúde acontece. A inteligência territorial é a capacidade de compreendê-lo a tempo de agir.

Das ULS aos sistemas locais de criação de saúde

As ULS são uma base importante. Mas talvez o próximo salto esteja na evolução para sistemas locais de saúde capazes de mobilizar muito mais do que as instituições públicas de prestação de cuidados.

A saúde da população também é produzida fora dos hospitais e dos centros de saúde. É produzida nos municípios, nas escolas, nas farmácias, nas associações, nas IPSS, nos clubes, nas piscinas, nos parques, nas cantinas, nos locais de trabalho, nos espaços culturais, nas redes de vizinhança e nos percursos quotidianos que tornam uma vida mais ou menos saudável.

Esta é a mudança de perspetiva que me parece essencial: passar de uma visão centrada apenas na resposta à doença para uma gestão territorial da criação de saúde. Prevenir, recuperar a autonomia, reduzir vulnerabilidades, promover o movimento, combater o isolamento, apoiar o envelhecimento ativo e diminuir a procura hospitalar evitável.

Neste sentido, um Sistema Local de Saúde não deve ser visto apenas como uma extensão organizacional da ULS. Deve ser entendido como uma arquitetura relacional: uma forma de ligar cuidados, dados, comunidade, autarquias, setor social, academia, ambiente, cultura, desporto e economia local em torno de uma pergunta comum: como este território pode criar mais saúde?

O Algarve como laboratório vivo

Esta discussão torna-se particularmente concreta no Algarve.

A região reúne algumas das tensões mais visíveis do sistema de saúde português: envelhecimento, sazonalidade extrema, mobilidade populacional, pressão assistencial, assimetrias territoriais e distância face a alguns centros de referência. Ao mesmo tempo, dispõe de condições únicas para testar uma nova geração de saúde territorial: uma ULS de escala regional, uma universidade, municípios ativos, a AMAL, a CCDR Algarve, redes comunitárias, setor social, farmácias, associações, empresas e uma economia local fortemente ligada ao bem-estar, ao turismo, à natureza, à atividade física e à qualidade de vida.

Por isso, o Algarve não deve ser visto apenas como uma região com necessidades específicas. Pode ser entendido como um laboratório vivo para testar como uma ULS evolui para um verdadeiro sistema territorial de criação de saúde.

Uma hipótese concreta seria o desenvolvimento de um “Atlas Health Algarve”: não um mapa de doença, mas um sistema de aprendizagem territorial. Um instrumento capaz de identificar onde nascem urgências evitáveis, reinternamentos, quedas, fragilidade, isolamento, doença crónica descompensada, perda de autonomia e outras vulnerabilidades que não se resolvem apenas nas unidades de saúde.

Mas este atlas não deveria servir apenas para observar. Deveria servir para agir. Para orientar microintervenções, testar respostas, envolver parceiros locais, medir resultados e aprender com a experiência das comunidades.

Não precisamos apenas de mais projetos

No Lagos WellTech Summit, quando juntámos One Health, prescrição social, farmácias de proximidade, literacia alimentar, associações de doentes, universidades, CCDR, startups, retalho alimentar e cidadãos, tornou-se evidente que o território já produz muitas respostas. O problema é que essas respostas nem sempre se ligam, nem sempre são avaliadas e nem sempre aprendem umas com as outras.

Sem mecanismos de aprendizagem territorial, corremos o risco de continuar a ter muitas boas iniciativas locais, mas com pouco impacto sistémico na saúde das populações.

Uma das perguntas mais importantes colocadas nessa discussão foi precisamente esta: como podemos estruturar iniciativas no território para que funcionem de forma integrada, permitam medir resultados e aprendam continuamente com os dados e com a experiência das comunidades?

A resposta não está necessariamente em começar por grandes programas nacionais ou por plataformas complexas. Pode começar por micro-pilotos territoriais: experiências pequenas, bem desenhadas, com parceiros locais, objetivos claros, indicadores simples e uma pergunta concreta sobre o valor que se pretende criar.

O importante é que cada piloto seja projetado para aprender. Uma população-alvo, uma necessidade real, um conjunto de parceiros, dados mínimos, uma hipótese de mudança e uma forma simples de medir se algo melhorou.

Portugal não precisa apenas de mais projetos. Precisa de projetos que aprendam, mudem práticas e deixem capacidade instalada no território.

Micro-pilotos para aprender antes de escalar

É neste espírito que iniciativas como o ARIS Algarve podem desempenhar um papel relevante. Não como mais uma plataforma abstrata, mas como um espaço aberto para desenhar, testar e aprender com micro-pilotos em saúde territorial, bem-estar e longevidade.

Pequenas experiências colaborativas podem ligar municípios, ULS, universidade, setor social, farmácias, associações de doentes, empresas e comunidades locais em torno de problemas concretos: isolamento de pessoas idosas, adesão terapêutica, literacia alimentar, fragilidade, prescrição social e cultural, atividade física, saúde mental, envelhecimento ativo ou acompanhamento de doença crónica.

O Algarve pode tornar-se um laboratório vivo se souber começar pequeno: identificar problemas concretos, mobilizar os parceiros certos, testar micro-pilotos, medir aprendizagem e escalar apenas aquilo que demonstrar valor.

Nem tudo precisa nascer grande. Algumas das melhores aprendizagens podem surgir de uma freguesia, de uma população-alvo, de uma escola, de uma farmácia, de uma associação, de um clube, de uma piscina municipal, de uma comunidade de prática ou de um percurso de proximidade.

One Health, resiliência e múltiplas formas de conhecimento

Esta agenda ganhou também expressão recente no CNN Portugal Summit “Resiliência da Saúde perante Emergências Complexas”, organizado com a Egas Moniz School of Health & Science, no qual tive a honra de participar como co-editor do livro One Health, Many Ways of Knowing, distribuído aos participantes.

Agradeço à Egas Moniz School of Health & Science a confiança neste trabalho editorial, que traduz uma convicção cada vez mais clara: a resiliência em saúde depende da capacidade de ligar ciência, território, proteção civil, tecnologia, governação, comunidade e diferentes formas de conhecimento.

A abordagem One Health ajuda-nos precisamente a ampliar a lente. A saúde humana não pode ser separada da saúde animal, da saúde ambiental, da segurança alimentar, dos estilos de vida, das condições sociais, da educação, da mobilidade, do clima e da forma como os territórios estão organizados.

Essa visão é particularmente importante quando falamos de emergências complexas. A próxima crise dificilmente será apenas clínica. Poderá ser climática, alimentar, energética, social, pandémica, tecnológica ou uma combinação de várias dimensões. A resposta terá de ser integrada. E essa integração começa antes da emergência: na forma como os territórios conhecem as suas vulnerabilidades, mobilizam os seus ativos e criam capacidade de resposta.

A saúde digital como sistema nervoso do território

A saúde digital entra aqui não como um fim em si mesma, mas como o sistema nervoso do território.

O seu papel não deve ser apenas digitalizar processos existentes. Deve ajudar a integrar dados clínicos, sociais, demográficos, ambientais e comunitários; apoiar decisões preventivas; identificar riscos; tornar visíveis os ativos locais; reduzir redundâncias; facilitar a coordenação entre parceiros; e medir o valor em saúde.

A inteligência artificial poderá ter um papel importante, mas só se for construída com base em dados de qualidade, interoperabilidade real, governação ética e confiança institucional. Antes de escalar inteligência artificial, precisamos de consolidar a qualidade, a circulação e a utilização responsável dos dados de saúde.

É aqui que a conversa sobre ULS, Sistemas Locais de Saúde, One Health e micro-pilotos se encontra. A questão não é apenas tecnológica. É organizacional, ética e colaborativa.

Como desenhar sistemas que aprendem?

Como transformar dados em decisões úteis?

Como reconhecer contribuidores líquidos para a saúde que estão fora do orçamento formal da saúde?

Como financiar prevenção, autonomia, funcionalidade e bem-estar, e não apenas atividade assistencial?

Como garantir que cidadãos, profissionais e comunidades não sejam apenas fontes de dados, mas também participantes ativos na construção de respostas?

O próximo salto

O próximo salto da saúde digital em Portugal não será apenas construir mais plataformas. Será construir plataformas que ajudem os territórios a aprender.

Aprender onde estão as vulnerabilidades. Onde se acumulam custos evitáveis. Onde se perde autonomia. Onde surgem urgências que poderiam ter sido prevenidas. Onde há isolamento. Onde a comunidade já está a criar saúde sem que o sistema o reconheça. Onde pequenas intervenções podem gerar ganhos relevantes.

As ULS constituem a arquitetura institucional. Os Sistemas Locais de Saúde são a arquitetura relacional. A saúde digital deve ser o sistema nervoso que liga dados, cuidados, comunidade e decisão.

Se Portugal conseguir ligar a reforma das ULS à lógica dos Sistemas Locais de Saúde e a uma verdadeira inteligência territorial, poderá passar de uma agenda centrada na integração de cuidados para uma agenda mais ambiciosa: criar saúde, medir valor e desenhar territórios que cuidam.

O Algarve pode ser um dos lugares onde essa aprendizagem começa.

Paulo Nunes de Abreu, Curador-Geral do Lagos WellTech Summit

Referências

Matias, S. Nunes de Abreu, P. (2026) Do Algarve que Trata ao Algarve que Cria Saúde Projeto ARIS Algarve | Digital Health Portugal

Rego, P (2024) O Sistema Local de Saúde do Algarve: Expetativas e Desafios Revista GH, nr 38 – Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares