Dispersão de mosquitos transmissores de doenças: um desafio emergente para a saúde pública
Novo estudo com coordenação portuguesa publicado na revista Nature Communications revela padrões alarmantes de invasão global por mosquitos vetores de doenças humanas
Lisboa, 22 de outubro de 2025,
Um novo estudo internacional, liderado por investigadores do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa (IHMT NOVA) e do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território da Universidade de Lisboa (IGOT-UL), revela como a globalização e o comércio internacional estão a impulsionar a dispersão global de mosquitos transmissores de doenças como a malária, dengue e Zika.
O artigo, publicado na prestigiada revista científica Nature Communications (https://doi.org/10.1038/s41467-025-64446-3) , intitula-se “Global invasion patterns and dynamics of disease vector mosquitoes” e resulta de uma colaboração entre instituições de Portugal e da Áustria. Destaca-se a participação das investigadoras Rebecca Pabst e Carla A. Sousa (IHMT NOVA) e de César Capinha (IGOT-UL), coordenador do estudo, que integram uma equipa de nove autores especialistas em entomologia médica e biogeografia.
Entre as principais conclusões, o estudo revela que 45 espécies de mosquitos vetores de doenças humanas já foram introduzidas em novas regiões do planeta, das quais 28 se encontram atualmente estabelecidas, aumentando substancialmente o risco de transmissão de doenças. É particularmente preocupante a tendência crescente de novas introduções, com 12 espécies identificadas pela primeira vez desde o ano 2000.
Devido à ação humana, espécies como Aedes aegypti e Aedes albopictus, entre as mais relevantes do ponto de vista da saúde pública, já se encontram presentes em todos os continentes, com exceção da Antártida. Por outro lado, algumas espécies introduzidas mais recentemente têm mostrado uma rápida expansão global. É o caso de Anopheles stephensi, um vetor urbano de malária, detetado pela primeira vez em África em 2012 e já presente em pelo menos nove países do continente.
Globalização e rotas comerciais como principais vias de dispersão
O estudo mostra que a dispersão destes mosquitos está fortemente associada ao transporte internacional de mercadorias, especialmente através de pneus usados, plantas ornamentais e contentores, facilitada pela expansão das redes de transporte aéreo, marítimo e terrestre. Observa-se também uma mudança nas regiões de origem das espécies invasoras, com a Ásia a ultrapassar recentemente África como a principal fonte de exportação destas espécies.
A análise espacial realizada pelo indica que países com maior PIB per capita e elevada densidade populacional apresentam maior suscetibilidade à introdução destes vetores, o que reforça a necessidade de políticas de prevenção ajustadas às especificidades socioeconómicas de cada região. A Europa destaca-se como um dos continentes mais afetados, com França, Países Baixos e Reino Unido identificados como pontos críticos de introdução e estabelecimento destas espécies.
Relevância para a saúde pública
Os autores alertam que, uma vez estabelecidos, os mosquitos vetores são extremamente difíceis de erradicar, o que reforça a necessidade de vigilância epidemiológica contínua e de estratégias preventivas robustas.
“A expansão geográfica destes mosquitos está a transformar os padrões globais de risco epidemiológico, incluindo em países de clima temperado como Portugal”, afirma Carla A. Sousa, investigadora do IHMT NOVA e coautora do estudo. Por seu lado, César Capinha, biogeógrafo e coordenador da investigação, sublinha que “estas introduções inserem-se numa tendência global crescente de invasões biológicas. É provável que novas espécies continuem a surgir nos próximos anos, trazendo consigo consequências ainda difíceis de prever.” Este trabalho, que compila e analisa uma nova base de dados global, constitui uma referência científica fundamental para o desenho de políticas públicas de prevenção e resposta a doenças emergentes associadas à invasão de mosquitos vetores.
Para mais informações ou pedidos de entrevista, por favor contactar: Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa
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