Incêndios: Um Problema de Saúde

Newsletter do Fórum Hospital do Futuro | nº 8/2025 (mensal) Agosto 2025 >> Poderá subscrever e ler este mesmo artigo no LinkedIn

Hoje, às 13:35 de sábado, 23 de agosto de 2025, enquanto o fumo ainda tolda o céu de Portugal, é impossível desviar o olhar dos 274.000 hectares ardidos até ao dia 21. Isto não é só uma crise ambiental — é uma emergência de saúde pública que nos chama a refletir. Este editorial do Fórum Hospital do Futuro mergulha nesta realidade, tecendo uma narrativa que une saúde, clima e ação humana, e propõe uma visão holística com o conceito de One Health, além de uma reforma urgente do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para o século XXI.

Article content

O impacto é visível e palpável. O fumo denso, como o que marcou 2017 com 520.000 hectares queimados e agora 2025 com 274.000, dispara casos de asma e problemas cardíacos, sobretudo entre os mais frágeis — crianças e idosos. Queimaduras, traumas e um silêncio pesado de stress pós-traumático pesam sobre as vítimas, enquanto evacuações e perdas económicas abalam a mente das comunidades. O gráfico anexo conta esta história: a linha vermelha dispara em 2017 e 2025, refletindo a devastação, enquanto a azul, da precipitação, cai em anos críticos como os 541 mm de 2017. É uma dança cruel entre natureza e bem-estar.

O Elemento Humano por Trás das Chamas

Mas há um rosto nesta tragédia. A linha verde no gráfico, que sobe para cerca de 100 detenções em 2025 (95 confirmadas, 54 pela PJ, 41 pela GNR), aponta para os incendiários. Homens, na maioria, entre 33 e 46 anos, isolados, com pouca escolaridade e, muitas vezes, perturbações mentais ou dependências. Alguns acendem o fogo por fascínio, outros por vingança ou vandalismo. Idosos, por acidente, deixam chamas escaparem de queimas mal feitas. A reincidência, com “serial arsonists” a repetir atos, expõe a falha de um sistema que não reabilita — o prometido em 2018 ficou na gaveta.

One Health: Uma Visão que Une

Aqui entra o conceito de One Health, que liga saúde humana, animal e ambiental. Os incêndios devastam florestas, matam fauna e abrem portas a doenças. É um ciclo que nos afeta a todos. Médicos, veterinários, ecologistas e psicólogos precisam de trabalhar juntos, monitorando o ar, protegendo habitats e apoiando mentalmente incendiários e vítimas. Esta abordagem vai além do simples remediar e está focada no ataque à raiz do problema.

Um SNS para o Futuro

E o SNS? Num século XXI onde os incêndios são rotina, precisa de se reinventar. Imaginem um SNS autónomo, liderado por uma Agência Nacional para a Saúde, composta por um prestigiado corpo profissional multidisciplinar, livre de jogos políticos, centrada na missão acima descrita? Esta entidade poderia contratar de forma autónoma e negociar salários diretamente com sindicatos, gerir o orçamento e propor um pacto com os partidos por uma gestão de saúde independente. Esta agência poderá coordenar as Unidades Locais de Saúde, agora convertidas em Sistemas Locais de Saúde, geridas por uma administração local de saúde, como possibilidade de contratar fora da rigidez pública, usando tecnologia como IA para prever incêndios e plataformas partilhadas com a proteção civil. Telemedicina e equipas de One Health trariam resiliência onde mais precisamos.

Conclusão e Chamada à Ação

Os incêndios mostram-nos, de forma dolorosa, que a saúde não pode ser pensada isoladamente. O ar que respiramos, os ecossistemas que perdemos, as comunidades que sofrem — tudo está interligado. É nesta teia que o conceito de One Health ganha força, e é neste contexto que o SNS precisa de se reinventar, mobilizando não apenas recursos clínicos, mas também inteligência coletiva, inovação tecnológica e colaboração entre todos os níveis da sociedade.

É precisamente este o espírito do V Plenário do Think Tank Saúde Sustentável – A Inteligência Coletiva ao Serviço de uma Saúde Sustentável, a realizar em 2026. Depois do sucesso do IV Plenário na Fundação Calouste Gulbenkian, este próximo encontro aprofundará os temas críticos já identificados e trará para o centro do debate o papel transformador dos dados em saúde e da inteligência artificial.

Convidamo-lo a acompanhar as atualizações em www.saudesustentavel.pt e a juntar-se a esta jornada. Porque a saúde sustentável não se constrói com declarações — constrói-se com participação, visão e ação coletiva.