Hemodiálise em férias: Um direito que não deve tirar férias

Artigo de opinião de Cristina Pires, Clinical Services Specialist South na DaVita Portugal

Hemodiálise em férias: Um direito que não deve tirar férias

A hemodiálise é um tratamento vital periódico que não pode ser interrompido. Em Portugal, milhares de pessoas dependem deste tratamento pelo menos três vezes por semana, durante várias horas, para substituir parcialmente a função dos rins. Esta regularidade do tratamento é essencial para manter o equilíbrio do organismo e evitar complicações graves. A interrupção do tratamento, mesmo que por poucos dias, pode provocar acumulação de líquidos, aumento da pressão arterial, falta de ar, alterações perigosas nos níveis de substâncias no sangue e mal-estar intenso, podendo levar a situações de risco de vida. Esta realidade condiciona a vida profissional, familiar e social, tornando o planeamento de qualquer deslocação muito mais complexo do que para a maioria da população.

Para a maioria das pessoas, as férias representam descanso e liberdade. No entanto, para quem depende do tratamento de hemodiálise, viajar pode ser desafiante, exigindo uma preparação rigorosa e capacidade de adaptação para sair da chamada “zona de conforto” associada aos cuidados e à equipa de saúde já conhecidos.

Ainda existem barreiras que impedem muitas pessoas com doença renal de usufruírem plenamente do direito às férias. Encontrar uma unidade de hemodiálise disponível no destino pretendido nem sempre é fácil. A elevada procura, a limitação de vagas, constrangimentos no âmbito dos transportes ou da acessibilidade e as diferenças na organização entre regiões podem transformar aquilo que deveria ser um momento de descanso numa verdadeira fonte de ansiedade.

É por isso que o planeamento antecipado é tão importante. Quanto mais cedo forem realizados os contactos entre a unidade de hemodiálise de origem e a unidade de destino, maiores serão as hipóteses de garantir uma vaga, horários compatíveis, a correta transmissão de informação clínica e uma transição segura do plano de cuidados entre equipas.

As pessoas em hemodiálise têm o mesmo direito ao lazer, ao descanso e ao convívio familiar que qualquer outro cidadão. As férias não são um luxo, são uma componente importante do bem-estar físico e emocional de cada pessoa. A possibilidade de viajar contribui para combater o isolamento, reduzir o impacto psicológico da doença crónica e melhorar a qualidade de vida.

Para as pessoas com doença renal crónica que desejam viajar, deixo algumas recomendações práticas:

– Planear a viagem com antecedência, idealmente várias semanas ou meses antes;

– Confirmar previamente as sessões de hemodiálise marcadas na clínica de origem e na clínica de destino;

– Levar consigo toda a documentação clínica necessária e relevante para a continuidade dos tratamentos;

– Manter rigorosamente o esquema de tratamento, sem faltas nem interrupções por iniciativa própria;

– Levar medicação suficiente para toda a viagem, incluindo alguns dias extra para imprevistos que possam surgir;

– Respeitar orientações alimentares e a restrição de líquidos indicadas pela equipa clínica;

– Escolher, sempre que possível, destinos com acesso fácil a uma unidade de diálise ou cuidados hospitalares;

– Evitar esforços excessivos nos dias de tratamento e reservar tempo para descanso;

– Comunicar à equipa de saúde qualquer sintoma fora do habitual antes, durante ou após a viagem;

– Ter consigo contactos de emergência e um plano alternativo caso surja algum contratempo.

Fale com a sua equipa de saúde para obter aconselhamento e preparar a sua viagem com segurança. Boas férias!